Golpe da falsa central: vishing, spoofing e o que fazer se você já pagou

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Celular com uma chamada recebida e ondas de som, um anzol, um banco e um triângulo de alerta, em linhas azuis sobre fundo preto

O celular toca e aparece o nome do seu banco, ou aquele 0800 que você conhece. Do outro lado, uma pessoa educada e muito segura diz que detectaram uma compra estranha ou um Pix agendado que você não reconhece, e que é preciso agir agora. Ela pede o código que acabou de chegar, pede para você confirmar uma operação no app ou para transferir o dinheiro para uma «conta segura» enquanto resolvem. Se isso aconteceu com você e agora você percebeu que não era o banco, respire: você não é o primeiro nem o último, e ainda dá para fazer muita coisa.

Isso tem nome: é o golpe da falsa central, que no mundo todo é chamado de vishing (golpe por ligação), e muitas vezes vem junto com o spoofing, o truque que faz o número verdadeiro do banco aparecer na sua tela. A gente explica como funciona, o que fazer hoje se você passou um código ou fez um Pix, e como reconhecer a próxima ligação para desligar a tempo.

Resposta rápida

Se já saiu dinheiro, desligue e ligue você mesmo para o banco, de preferência de outro telefone, pelo número do verso do cartão ou do site oficial. Peça o bloqueio de cartões e do app e, se foi Pix, peça o MED na hora. Depois registre o BO e reclame por escrito. Os bancos respondem por fraudes de terceiros nas operações bancárias (Súmula 479 do STJ). Em muitos casos o dinheiro é recuperado, sobretudo se você agir rápido.

Neste artigo
  1. O que é o vishing (e como o golpe costuma começar)
  2. Spoofing: quando a ligação parece vir do seu banco
  3. Como reconhecer uma ligação falsa
  4. Se você passou códigos ou fez um Pix
  5. O banco responde?
  6. Imagine que isso acontece com você
  7. Como se proteger do golpe por telefone
  8. Cuidado com a segunda ligação
  9. Quando pedir ajuda

O que é o vishing (e como o golpe costuma começar)

Vishing é o golpe em que alguém liga se passando por uma empresa ou instituição de confiança para tirar de você informações ou dinheiro. A palavra junta voice (voz) e phishing, que é o mesmo truque por e-mail. Ninguém invade o seu celular: eles convencem você a fazer alguma coisa. A Febraban resume bem: as estratégias mudam, mas a tática é sempre a manipulação psicológica.

A ligação quase sempre usa medo e pressa. Estas são as histórias que mais se repetem:

  • A compra suspeita. «Bloqueamos uma compra de R$ 2.000 numa loja on-line, foi o senhor?». Quando você diz que não, pedem o código que acabou de chegar «para cancelar». Esse código, na verdade, serve para autorizar a operação.
  • O Pix de teste ou de estorno. Dizem que precisam fazer um «teste» ou um «estorno» e pedem para você fazer um Pix ou ler um QR code. A Febraban é clara: funcionário de banco não liga para fazer testes com Pix nem estornos.
  • A conta segura. Dizem que a sua conta foi invadida e que, enquanto protegem, você precisa transferir o saldo para outra conta que eles passam. Guiam você passo a passo no seu próprio app, para parecer normal.
  • O aplicativo de ajuda. Pedem para você instalar um app para «verificar o celular» ou uma suposta atualização do banco. Costuma ser um programa de acesso remoto, que permite mexer na sua conta à distância.
  • O motoboy. Em algumas versões, pedem que você entregue o cartão a um portador para «perícia». Banco nenhum faz isso.

Muitas vezes a ligação vem logo depois de um SMS ou WhatsApp com cara de oficial. Assim, quando o telefone toca, você já está preocupado e a história encaixa.

Spoofing: quando a ligação parece vir do seu banco

O spoofing é o que mais confunde, porque quebra a regra que quase todo mundo usa: «se aparece o número do meu banco, é o meu banco». Com esse truque, o golpista falsifica a identificação da chamada para que apareça o número oficial, às vezes um 0800 bem conhecido.

Existe uma boa notícia. A Anatel colocou em funcionamento o Origem Verificada, uma tecnologia que valida a origem da chamada e pode mostrar na tela o nome da empresa, o logotipo, o motivo da ligação e o selo «Número Validado». Ela usa protocolos internacionais (STIR/SHAKEN) para garantir que o número não foi falsificado, como explica a própria Anatel. Mas a identificação na tela depende de o banco ter contratado o serviço e de o seu celular ser compatível, então ainda não aparece em todas as ligações.

Por isso, a ideia que vale guardar é simples: o número que aparece na tela não prova quem está ligando.

Como reconhecer uma ligação falsa

Você não precisa ser especialista. As ligações do golpe da falsa central são muito parecidas, e quando você sabe o que procurar, reconhece rápido:

  • Pedem senha, token ou o código que chegou por SMS. Segundo a Febraban, os bancos nunca ligam pedindo senhas, dados pessoais ou tokens. Esse código é a chave do seu dinheiro, e se alguém pede, por mais profissional que pareça, é golpe.
  • Tem muita pressa. «Se não fizermos agora, o senhor vai perder o dinheiro». Os bancos não usam pressão nem urgência para você agir na hora.
  • Pedem para você transferir dinheiro. Banco de verdade bloqueia o cartão ou a conta; não pede Pix, transferência nem pagamento para «resolver» problema.
  • Sabem coisas sobre você. Saber o seu nome, CPF ou os últimos números do cartão não significa que são do banco. Esses dados podem vir de vazamentos de outras empresas.
  • Pedem para instalar algo. Os bancos nunca pedem para você instalar ou atualizar aplicativos por telefone.
  • O que aparece no app não bate com o que dizem. Se falam que você vai «cancelar» algo, mas a tela diz «confirmar Pix» ou «autorizar pagamento», acredite na tela, não na voz.

Na menor dúvida, desligue. O seu banco de verdade não vai se importar: você liga depois e, se era real, eles confirmam. E aqui vai um detalhe importante que a Febraban explica: às vezes o golpista pede para você ligar para o número do verso do cartão, mas continua na linha para simular o atendimento. Por isso, ligue de outro telefone ou espere alguns minutos antes de ligar.

Se você passou códigos ou fez um Pix

Se você está lendo isso com o coração acelerado porque acabou de acontecer, vamos por partes. O que você fizer nas próximas horas é o que mais pesa, então siga esta ordem:

  1. Ligue para o banco pelo canal oficial, de outro telefone se puder: o número do verso do cartão, o app ou uma agência. Peça o bloqueio de cartões, do app e das operações pendentes.
  2. Se foi Pix, peça o MED na hora. O Mecanismo Especial de Devolução serve para casos de golpe e permite bloquear o dinheiro que ainda estiver na conta de quem recebeu. Quanto antes, melhor. Anote o protocolo.
  3. Troque as senhas de um aparelho de confiança. Se instalou algum app que pediram, desinstale e conte ao banco, porque eles podem ter tido acesso ao seu celular.
  4. Guarde tudo: print do registro de chamadas com número e horário, as mensagens, os extratos e qualquer nome, chave Pix ou conta que tenham passado. Mesmo que o número fosse falsificado, ajuda na investigação.
  5. Registre o boletim de ocorrência, presencialmente ou pela delegacia virtual, que em muitos estados está disponível on-line pelo gov.br. Explicamos o passo a passo em como denunciar um golpe online.
  6. Reclame por escrito no SAC do banco, dizendo quais operações você não reconhece e como tudo aconteceu, e guarde o protocolo.

A gente sabe que é duro. Falaram com tanta segurança que você fez exatamente o que pediam, e isso não faz de você uma pessoa descuidada: essas ligações são ensaiadas para enganar gente cuidadosa. Agora é hora de agir rápido, e cada passo que você der hoje conta.

O banco responde?

É aqui que muita gente desiste cedo demais, e não deveria. A Súmula 479 do STJ diz que as instituições financeiras respondem objetivamente, ou seja, mesmo sem culpa, pelos danos causados por fraudes praticadas por terceiros em operações bancárias. Na prática, isso quer dizer que a fraude faz parte do risco da atividade do banco.

  • Se usaram o seu código para fazer operações que você não fez, você tem uma base forte para pedir a devolução: foram operações não reconhecidas, feitas por um golpista.
  • Se foi você quem fez o Pix, achando que estava protegendo o dinheiro, ainda há caminho. O MED existe justamente para isso, e o banco também pode responder quando deixa passar movimentações muito fora do seu perfil, como vários Pix altos seguidos para desconhecidos. E se disseram que a operação servia para cancelar uma fraude, você não estava concordando com aquele pagamento, estava tentando impedir, e isso precisa estar bem contado na reclamação.

Se o SAC não resolver, o caminho é a Ouvidoria do banco e, depois, a reclamação no Banco Central, o Consumidor.gov.br e, se preciso, a Justiça. Explicamos tudo com prazos e um modelo de reclamação em golpe bancário: o banco tem que devolver o dinheiro?, e todos os caminhos conforme o jeito que o dinheiro saiu em como recuperar dinheiro de um golpe.

Imagine que isso acontece com você

Imagine que, numa quinta de manhã, liga a «central de segurança» do seu banco, com o 0800 de sempre na tela. Dizem que tem um Pix de R$ 3.000 agendado na sua conta e que, para cancelar, você precisa informar o código que acabou de chegar. Você informa. Dez minutos depois chega outro aviso, e mais outro. Quando desliga e abre o app, há três Pix que você não fez.

Num caso assim, o primeiro passo seria ligar para o banco de outro telefone, bloquear tudo e pedir o MED dos três Pix. No mesmo dia, registrar o BO com prints do registro de chamadas e das mensagens e reclamar por escrito dizendo que não fez aquelas transferências e que passou o código achando que estava cancelando uma fraude. É só um exemplo, mas mostra o que mais ajuda nesses casos: agir rápido e contar com detalhes como você foi enganado.

Como se proteger do golpe por telefone

Se ainda não aconteceu com você, se proteger é mais fácil do que parece, e alguns hábitos deixam você bem à frente dos golpistas:

  • Nunca passe código por telefone. Nem para o banco, nem para a polícia, nem para ninguém. Se pedirem, desligue.
  • Desligue e ligue você. Diante de qualquer ligação que preocupe, encerre com educação e ligue de outro telefone para o número oficial do verso do cartão ou do site.
  • Desconfie da pressa e da «conta segura». Ninguém sério vai pedir para você mover o dinheiro para protegê-lo.
  • Leia sempre o que você confirma no app. A tela diz a verdade mesmo quando a voz não diz.
  • Ative as notificações de cada movimentação e, se o seu banco oferecer, limites menores para Pix à noite e para contas novas.
  • Converse com a família. Os mais velhos recebem muito essa ligação. Explicar que banco nunca pede código por telefone pode evitar um enorme desgosto.

Cuidado com a segunda ligação

É muito comum o golpista voltar a ligar depois. Às vezes se apresenta como o próprio banco, como a polícia ou como uma empresa que «recupera dinheiro de golpe» e pede um pagamento adiantado para devolver tudo. A gente entende a vontade de resolver logo, mas quem garante 100% em troca de pagar antes costuma ser o segundo golpe. Antes de pagar qualquer pessoa, leia como reconhecer o golpe da falsa recuperação.

Quando pedir ajuda

Se o banco devolveu o dinheiro em um ou dois dias, ótimo: guarde toda a documentação e siga com o BO. Vale a pena que um profissional analise quando o banco se nega ou não responde, quando falam em culpa exclusiva sua, quando o valor é alto ou quando foi você quem fez o Pix e é preciso agir rápido para tentar bloquear o dinheiro.

Somos advogados e peritos especialistas em golpes online, criptomoedas e crimes cibernéticos, e cada caso é conduzido por um advogado ou um perito. Analisamos com você quais operações foram feitas, como elas se enquadram juridicamente e o que pedir ao banco para que a sua reclamação tenha força. Em muitos casos o dinheiro é recuperado, sobretudo se você agir rápido. Na Kironic fazemos todo o possível para recuperar o seu dinheiro: envie o seu caso e a gente analisa junto.

Perguntas frequentes

Dá para falsificar o número do meu banco?

Dá. Isso se chama spoofing: o golpista manipula a identificação da chamada para que apareça na sua tela o número do banco, às vezes até um 0800 conhecido, mesmo ligando de outro lugar. A Anatel criou o Origem Verificada, que mostra o selo «Número Validado» nas chamadas autenticadas, mas nem todo banco e nem todo celular usam ainda. O mais seguro é desligar e ligar você mesmo para o número oficial, de preferência de outro telefone.

O banco devolve o dinheiro se eu caí no golpe da falsa central?

Em muitos casos, sim. A Súmula 479 do STJ diz que os bancos respondem pelos danos de fraudes praticadas por terceiros em operações bancárias, e o banco também pode responder quando deixa passar movimentações fora do seu perfil. Se foi Pix, peça o MED na hora. Em muitos casos o dinheiro é recuperado, sobretudo se você agir rápido.

O que é spoofing?

É o disfarce da identidade de quem liga ou escreve: o golpista faz a ligação, o SMS ou o e-mail parecer vir de alguém de confiança, como o seu banco, a operadora ou um órgão público. No telefone você vê um número que conhece, mas quem está do outro lado não tem nada a ver com ele.

Onde denuncio uma ligação de golpe?

Registre um boletim de ocorrência na Polícia Civil, presencialmente ou pela delegacia virtual do seu estado, com o número que ligou, data, horário, o que foi dito, prints e os dados das transferências. Avise também o seu banco pelos canais oficiais e, se o banco não resolver, reclame no Banco Central.

Só conversei com eles e não passei nenhum dado. E agora?

O mais provável é que nada tenha acontecido, mas vale ficar de olho por alguns dias. Confira o extrato, ignore novas ligações ou mensagens com a mesma história e, se eles sabiam dados seus que não deveriam saber, comente com o seu banco pelos canais oficiais.

Fontes