Muita gente desiste de registrar o boletim de ocorrência. Acha que não vai dar em nada, tem vergonha ou não sabe por onde começar. É compreensível, mas é um erro: sem B.O., o banco tende a negar a contestação, a corretora não colabora e a polícia nem fica sabendo que aquela conta recebeu dinheiro de mais uma vítima. Registrar leva menos tempo do que parece, e um relato bem feito faz diferença.
Este guia é para o Brasil, com uma seção para quem está em Portugal.
Resposta rápida
Primeiro, avise o banco (e peça o MED, se foi Pix). Depois registre o B.O. na delegacia online do seu estado ou em uma delegacia, de preferência no mesmo dia. Leve um relato em ordem cronológica, os comprovantes, prints das conversas e os dados de quem recebeu. É gratuito e não exige advogado. O B.O. não devolve o dinheiro sozinho, mas sem ele quase nenhum outro caminho funciona.
Neste artigo
- Antes do B.O.: o banco primeiro
- Onde registrar o boletim de ocorrência
- O que juntar: a lista de provas
- Um modelo de relato que funciona
- Outras denúncias que ajudam
- Quando a vítima é uma empresa
- Se usaram seus dados para abrir contas ou fazer dívidas
- Erros comuns ao denunciar
- Depois do B.O.: o que esperar
- Se você está em Portugal
- Conte com a Kironic
Antes do B.O.: o banco primeiro
Parece contraintuitivo, mas a ordem importa. Se o golpe envolveu Pix, ligue para o banco ou use o app imediatamente e peça a contestação pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED). Cada hora conta, porque o golpista costuma passar o dinheiro adiante muito rápido. Se foi cartão, peça o bloqueio e conteste as compras. Anote o número de protocolo de tudo.
Depois disso, registre o B.O. Vários bancos pedem o boletim para concluir a análise, e ter os dois feitos no mesmo dia fortalece seu caso. O passo a passo da parte bancária está em como recuperar dinheiro de golpe.
Onde registrar o boletim de ocorrência
Delegacia online do seu estado. Cada Polícia Civil tem seu sistema, e o gov.br reúne os links por estado. Normalmente é preciso informar CPF e dados pessoais, descrever o fato e anexar documentos. Você recebe o número do B.O. e, depois, o boletim validado.
Delegacia presencial. Útil quando o sistema online não aceita o tipo de ocorrência, quando o caso é complexo ou quando você prefere explicar pessoalmente. Leve tudo impresso ou num pen drive.
Delegacia especializada em crimes cibernéticos. Muitas capitais têm. Para golpes de valor alto, invasão de contas ou casos com cripto, costuma valer a pena.
O golpe online costuma se enquadrar como estelionato ou fraude eletrônica (Código Penal, art. 171, § 2º-A), e, se envolver criptomoedas, pode entrar no art. 171-A. Você não precisa saber o nome do crime para registrar: descreva os fatos, e a polícia faz o enquadramento.
O que juntar: a lista de provas
- Comprovantes de cada Pix, transferência, boleto ou compra no cartão, com data, hora e valor.
- Dados de quem recebeu: nome, CPF ou CNPJ, banco, chave Pix. Aparecem no comprovante.
- Prints das conversas (WhatsApp, Instagram, e-mail), mostrando o número ou perfil do golpista e as datas.
- Links do site, anúncio ou perfil falso. Copie o endereço completo, não só o nome.
- Protocolos do banco e de outras empresas que você já acionou.
- Em caso de criptomoedas, os hashes (TXID) e os endereços das carteiras.
Não apague nada, mesmo depois de registrar. A investigação pode pedir mais detalhes.
Não sabe se o relato está bom?
Envie para nós antes de registrar, ou depois, se já registrou. Revisamos de graça, apontamos o que falta e dizemos que outros caminhos existem no seu caso.
Um modelo de relato que funciona
O delegado lê dezenas de relatos por dia. Ajude: ordem cronológica, fatos concretos, sem opiniões. Um exemplo de estrutura (adapte ao seu caso):
No dia 3 de outubro de 2026, por volta das 14h, recebi mensagem no WhatsApp do número (11) 9XXXX-XXXX, com foto do meu filho, dizendo que ele tinha trocado de número. A pessoa pediu um Pix urgente para pagar uma conta. Às 14h22 fiz um Pix de R$ 2.800 para a chave XXX, em nome de FULANO, CPF XXX, banco XXX (comprovante anexo). Às 15h, ao falar com meu filho pelo número antigo, descobri que não era ele. Às 15h10 contestei o Pix no meu banco, protocolo XXX, e pedi o MED. Anexo prints da conversa e o comprovante.
Repare: data e hora, canal, valor, destinatário, o que você fez depois. Esse é o relato que o banco e a polícia conseguem usar.
Outras denúncias que ajudam
- A plataforma: denuncie o perfil ou o anúncio no WhatsApp, Instagram, Facebook, Mercado Livre ou onde foi. Isso pode derrubar o golpe antes que pegue outra pessoa.
- O Banco Central: se o banco não resolver a contestação, você pode registrar reclamação no BC. O BC não devolve dinheiro, mas a reclamação pressiona e fica registrada.
- Consumidor.gov.br: canal para reclamar de empresas cadastradas, inclusive bancos e lojas online.
- Procon: útil em casos de compra de loja real que não entregou.
Quando a vítima é uma empresa
O caminho é o mesmo, mas quem registra é o representante legal ou alguém com procuração, informando o CNPJ. Os golpes mais comuns contra empresas são o boleto adulterado, o e-mail falso de fornecedor com "novos dados bancários" e o falso diretor pedindo uma transferência urgente. Nesses casos, além dos comprovantes, guarde os e-mails originais completos (com cabeçalhos, não só o print) e não formate o computador de quem recebeu a mensagem. Um perito forense pode precisar dele para mostrar se houve invasão, e isso pode mudar quem responde pelo prejuízo.
Se usaram seus dados para abrir contas ou fazer dívidas
Às vezes o golpe não é um Pix que você fez, e sim alguém usando seu nome. Registre o B.O. do mesmo jeito, conteste cada conta ou dívida diretamente com a empresa, com o boletim em mãos, e consulte o Registrato do Banco Central para ver se há contas ou empréstimos no seu CPF que você não reconhece.
Erros comuns ao denunciar
- Esperar dias para registrar porque "não vai dar em nada".
- Relato vago: "fui enganado na internet" não ajuda ninguém. Coloque valores, horários e dados.
- Não juntar comprovantes, ou juntar só o print da tela sem o comprovante do banco.
- Registrar só o B.O. e esquecer o banco. São caminhos diferentes, e os dois são necessários.
- Pagar alguém que promete "acelerar o B.O." ou "recuperar pela polícia". Golpe em cima de golpe.
Depois do B.O.: o que esperar
Vamos ser honestos. Muitos boletins de golpe online não chegam a identificar o autor, principalmente quando o dinheiro passou por várias contas laranja ou saiu do país. Outros sim: o cruzamento de denúncias permite chegar a quadrilhas e, às vezes, bloquear valores. Seu B.O. pode ser a peça que faltava.
Além disso, o boletim serve para coisas práticas: contestar no banco, provar que você não autorizou uma operação, evitar cobrança de dívida feita no seu nome e embasar uma ação judicial. Se o valor é alto ou o banco negou a devolução, vale conversar com quem conhece o assunto: veja quando contratar um advogado para golpe online.
Se você está em Portugal
Em Portugal, a burla informática é investigada pela Polícia Judiciária, que aceita queixas pela Queixa Eletrónica, com autenticação pelo Cartão de Cidadão ou Chave Móvel Digital. Também pode apresentar queixa numa esquadra da PSP, num posto da GNR ou no Ministério Público; o justica.gov.pt explica as opções, e o MAI tem um sistema de queixa eletrónica para certos crimes. A lógica das provas é a mesma: cronologia, comprovativos, conversas e dados de quem recebeu. E avise o banco imediatamente.
Se houve criptomoedas, junte os hashes e endereços; o guia golpe da criptomoeda: o que fazer detalha.
Conte com a Kironic
Na Kironic, advogados e peritos forenses atendem vítimas de golpes online todos os dias. Conte o que aconteceu, envie o B.O. (ou o rascunho) e as provas. Revisamos de graça, dizemos o que está faltando e o que dá para fazer além do boletim: banco, Justiça, rastreamento. Quando a recuperação for improvável, também dizemos. Sem promessas, com clareza.


