Começou com um anúncio de famoso "investindo em bitcoin", um contato simpático num app de namoro ou um grupo no Telegram cheio de prints de lucros incríveis. No início, tudo parecia certo: um painel com o saldo subindo, um "gerente" atencioso, talvez até um pequeno saque que caiu na conta. Depois, na hora de tirar o dinheiro, vieram as taxas, os impostos e os bloqueios. Se isso soa familiar, você não está sozinho, e a culpa não é sua: esses golpes são montados por profissionais da enganação.
Vamos ao prático: o que fazer agora, que provas guardar, como denunciar e o que dá para esperar de verdade.
Resposta rápida
Pare de enviar dinheiro, mesmo que peçam "uma última taxa" para liberar seu saldo. Guarde os hashes (TXID), os endereços das carteiras e todas as conversas. Avise a corretora de onde você enviou e registre o boletim de ocorrência. As movimentações na blockchain podem ser rastreadas, mas recuperar o dinheiro só é possível em alguns casos, geralmente quando os fundos chegam a uma corretora que identifica os clientes e a Justiça age.
Neste artigo
Os golpes com criptomoedas mais comuns
Os nomes mudam, mas os roteiros se repetem:
- Plataformas de investimento falsas. Sites ou apps com cara profissional, muitas vezes divulgados com rosto de famosos ou notícias falsas. O saldo que você vê não existe.
- Golpe do amor ou pig butchering. Alguém cria uma relação com você por semanas e depois "ensina" a investir na plataforma dele.
- Grupos de Telegram ou WhatsApp com sinais de trade, "mentores" e depoimentos inventados.
- Falso suporte ou falsa corretora. Entram em contato por um suposto problema na sua conta e pedem para mover os fundos para uma "carteira segura".
- Phishing e wallet drainers. Um site falso faz você assinar uma autorização que esvazia a carteira.
- Tarefas pagas. Pagam pequenas quantias para "avaliar produtos" e depois exigem depósito em cripto para continuar.
No Brasil, a Lei 14.478/2022 criou o marco legal dos ativos virtuais e incluiu no Código Penal o art. 171-A, que pune com 4 a 8 anos de reclusão quem organiza, oferece ou intermedeia operações com ativos virtuais para enganar e obter vantagem ilícita. O Banco Central passou a regulamentar e autorizar as prestadoras desses serviços. Antes de investir, desconfie de plataformas sem CNPJ, sem sede identificável ou que só falam por WhatsApp, e confira os alertas da CVM sobre ofertas irregulares. Em Portugal, consulte os alertas da CMVM.
O que fazer nas primeiras horas
- Não envie nem mais um real. "Taxas de saque", "impostos" ou "depósitos de verificação" fazem parte do golpe.
- Não apague nada. Nem o app, nem as conversas, nem o perfil do suposto gerente.
- Reúna os dados de cada envio: data, valor, moeda, rede (por exemplo, USDT na rede Tron ou Ethereum), endereço de origem, endereço de destino e hash (TXID).
- Avise a corretora de onde você comprou ou enviou (Binance, Mercado Bitcoin, Foxbit, Coinbase…) pelo canal oficial, com os hashes. Peça que registrem como fraude.
- Se também pagou com Pix ou cartão para a plataforma ou um intermediário, aja já: veja como recuperar dinheiro de golpe, inclusive o MED do Pix.
- Proteja suas contas: troque senhas, ative a verificação em duas etapas e, se instalou programas de acesso remoto (AnyDesk, TeamViewer), desinstale e revise o aparelho.
- Registre o boletim de ocorrência. Mais abaixo explicamos como.
Onde encontrar o hash (TXID)
No histórico de saques da corretora costuma aparecer como "TxID", "Hash" ou "ID da transação". Se enviou de uma carteira própria, está no histórico da carteira. Copie também o endereço de destino completo: um único caractere diferente leva a outra carteira.
Dá para rastrear? O que é a análise de blockchain
Bitcoin, Ethereum, Tron e a maioria das blockchains são públicas. Cada transação fica registrada para sempre, e isso joga a favor da vítima. A análise de blockchain segue os fundos a partir do seu endereço: onde foram divididos, se passaram por misturadores ou bridges e, principalmente, se terminaram em uma corretora centralizada.
Esse último ponto é decisivo. Um endereço de blockchain não tem nome, mas uma corretora regulada sabe quem abriu a conta. Se o rastro chega lá, a polícia ou a Justiça podem pedir os dados do titular e, às vezes, o bloqueio do saldo.
Sejamos realistas também: se os fundos passaram por misturadores, pularam entre várias redes ou foram parar em corretoras que não colaboram, a chance de recuperação cai muito. Um laudo pericial serve justamente para saber em qual cenário você está antes de gastar mais. Explicamos em perito forense digital e advogado em criptomoedas.
Antes de pagar alguém para rastrear
Envie os hashes e os endereços para nós. Nossos peritos em criptomoedas analisam seu caso de graça e dizem se há um rastro útil ou se, honestamente, não vale a pena investir mais dinheiro.
Como denunciar golpe com criptomoedas
No Brasil, registre o boletim de ocorrência na Polícia Civil: em uma delegacia, pela delegacia online do seu estado (o gov.br reúne os serviços de ocorrência online) ou em uma delegacia especializada em crimes cibernéticos, se houver na sua cidade. Dependendo do caso, a investigação pode envolver a Polícia Federal.
Em Portugal, a Polícia Judiciária é a entidade competente para a burla informática e aceita queixas pela Queixa Eletrónica, com autenticação pelo Cartão de Cidadão.
Leve um resumo em ordem cronológica, a lista de hashes e endereços, prints da plataforma e das conversas, o nome do site ou app e os comprovantes bancários, se houver. O guia como denunciar golpe online explica tudo passo a passo.
Quando um perito ou um advogado ajuda
Com valores pequenos e um único envio, um boletim bem documentado costuma bastar. Com quantias maiores, vários envios ou fundos que chegaram a corretoras, faz sentido:
- Um perito em criptomoedas para fazer o rastreamento e registrá-lo em um laudo que a polícia ou o juiz possam usar.
- Um advogado para usar esse laudo, pedir medidas na Justiça (como ordem para a corretora informar o titular ou bloquear saldo) e, se houver base, processar terceiros.
Nem sempre os dois são necessários no primeiro dia. O sensato é começar avaliando o rastro.
Erros que pioram o caso
- Pagar a "taxa de liberação". Nenhuma plataforma real cobra percentual antecipado para você sacar o próprio saldo.
- Apagar o app ou a conversa por vergonha. Sem essas provas, a denúncia fica fraca e o rastreamento começa às cegas.
- Confrontar o golpista ou ameaçar com a polícia. Ele só vai mover os fundos mais rápido.
- Entregar suas chaves privadas ou a frase-semente para quem diz ajudar. Ninguém legítimo vai pedir isso.
- Esperar para ver se resolve sozinho. A cada semana, os fundos se espalham um pouco mais.
Falsas empresas de recuperação: o segundo golpe
É quase certo que, depois do golpe, alguém ofereça recuperar suas criptomoedas. Vão dizer que são "hackers éticos", um escritório internacional ou que trabalham com a polícia. Vão pedir adiantamento ou uma "taxa de liberação". É o segundo golpe, às vezes aplicado pelas mesmas pessoas. O FBI já alertou sobre falsos escritórios de advocacia que miram vítimas de golpes com cripto. Veja como identificar em golpe do falso advogado e falsas empresas de recuperação.
O que podemos fazer por você
Na Kironic atendemos casos de golpes com criptomoedas com uma equipe de peritos em blockchain, peritos em computação forense e advogados. A primeira coisa que fazemos é olhar o rastro: se os fundos chegaram a algum lugar identificável, que opções isso abre e quais não abre. Envie os hashes, as carteiras e um resumo do que aconteceu. Analisamos de graça e dizemos o que dá para fazer, sem promessas que ninguém pode cumprir.


