Faz alguns dias que o seu celular anda estranho. A bateria dura metade do tempo, apareceu um app que você não lembra de ter instalado, um amigo recebeu uma mensagem sua que você nunca escreveu ou o banco avisou de um acesso que não foi você. É normal surgir a dúvida que tanta gente procura hoje: será que meu celular foi clonado ou hackeado? Às vezes foi, muitas vezes não, e a boa notícia é que dá para verificar sem ser especialista em tecnologia.
A seguir, você vai ver como saber se o seu celular foi clonado ou invadido, o que conferir no Android e no iPhone, o que há de verdade nesses códigos que circulam «para saber se o celular está clonado», como limpar o aparelho e o que fazer se já usaram o seu WhatsApp, as suas redes ou o seu banco. E se ainda não aconteceu nada, no final você encontra o que realmente protege um celular, que é bem menos complicado do que parece.
Resposta rápida
Os sinais mais claros são apps que você não instalou, mensagens ou pagamentos que você não fez, avisos de login em outro aparelho e um celular que de repente fica lento, esquenta ou gasta muito mais dados. Revise os apps e as permissões, rode o Google Play Protect no Android ou a Verificação de Segurança no iPhone e troque as senhas importantes a partir de outro aparelho. Nenhum código do teclado detecta invasão: *#21# só mostra se as suas ligações estão sendo desviadas. Se saiu dinheiro, ligue hoje para o banco pelo número oficial, peça o MED se foi Pix e registre o boletim de ocorrência. Em muitos casos o dinheiro é recuperado, sobretudo se você agir rápido.
Neste artigo
- O que significa ter o celular clonado ou hackeado
- Sinais de celular hackeado ou clonado
- Como verificar no Android e no iPhone
- Mitos: o código para saber se o celular foi clonado
- Como limpar o celular passo a passo
- Se já usaram o seu WhatsApp, as suas contas ou o seu banco
- Quando pedir uma perícia no celular
- Imagine que isso acontece com você
- Como evitar que invadam o seu celular de novo
- Cuidado com quem oferece «desclonar» o seu celular
- Se levaram dinheiro, não deixe para depois
O que significa ter o celular clonado ou hackeado
Quando alguém diz que o celular foi clonado ou hackeado, quase sempre está falando de uma destas três coisas, e vale saber qual é a sua porque a solução muda.
A primeira, e de longe a mais comum, é que entraram em uma conta, não no aparelho: o seu WhatsApp, o Instagram, o e-mail ou a conta Google ou Apple. No Brasil, muita gente chama isso de «WhatsApp clonado». Acontece quando alguém consegue a sua senha ou o código que chega por SMS, muitas vezes com um golpe. O celular está bem, mas a sua conta está sendo usada de outro lugar.
A segunda é que há um app malicioso instalado, o que se costuma chamar de malware: um programa que rouba os seus dados, lê os seus SMS para pegar os códigos do banco ou deixa outra pessoa controlar a tela à distância. Quase sempre ele chega porque alguém convenceu você a instalá-lo, por um link, uma ligação ou uma mensagem.
A terceira é que alguém está espionando você com um app de monitoramento, o chamado stalkerware. Normalmente é instalado por alguém que teve o seu celular nas mãos, às vezes uma pessoa próxima, como um parceiro ou ex.
Existe um quarto caso, o dos programas espiões milionários que aparecem no noticiário, mas a Apple deixa claro que eles miram um número muito pequeno de pessoas por quem elas são ou pelo que fazem. Se você é uma pessoa comum, com uma vida comum, o seu caso quase certamente está entre os três primeiros, e todos têm solução.
Sinais de celular hackeado ou clonado
Nenhum sinal isolado prova nada, porque um celular antigo também fica lento e um app mal feito também gasta bateria. O que deve acender o alerta é aparecerem vários juntos, ou começarem logo depois de você clicar em um link ou instalar alguma coisa. Estes são os que o CERT.br e o Google apontam:
- Apps que você não lembra de ter instalado, ou um app que some do menu mas continua funcionando por trás.
- Mensagens, e-mails ou posts que você não enviou. Muitas vezes você só descobre porque um amigo pergunta.
- Avisos de login no e-mail, no WhatsApp ou nas redes a partir de um aparelho ou lugar que você não reconhece, ou códigos de verificação chegando sem você pedir.
- Movimentações no banco que não são suas, Pix que você não fez, cartões cadastrados em outro celular ou novos favorecidos.
- Bateria que acaba muito rápido, consumo de dados lá em cima ou celular esquentando sem você estar usando.
- Anúncios e janelas que pulam sozinhos, até fora do navegador.
- O celular liga, reinicia ou abre apps sozinho, ou mudam configurações que você não mexeu.
- Alguém sabe coisas que só estavam no seu celular, como conversas ou lugares onde você esteve. Esse é o sinal que mais aponta para um app espião.
Se você se reconheceu em um ou dois, não precisa se assustar: normalmente há uma explicação simples. Se se reconheceu em vários, continue lendo e vamos verificar.
Como verificar no Android e no iPhone
Você não precisa instalar nada estranho para revisar o celular. Os dois sistemas trazem ferramentas oficiais e gratuitas, e em quinze minutos dá para tirar a dúvida na maioria dos casos.
No Android
- Rode o Google Play Protect. Abra a Play Store, toque na sua foto de perfil no canto superior direito e entre em Play Protect. Confira se a verificação está ativada e faça uma análise. O Google explica que o Play Protect procura apps nocivos, inclusive os que não vieram da loja, e avisa você ou os desativa.
- Revise a lista de apps em Configurações, na parte de aplicativos, e procure qualquer um que você não reconheça ou não tenha instalado. Desconfie principalmente de nomes genéricos como «Atualização do sistema» ou «Serviço».
- Confira as permissões sensíveis. Veja quais apps têm acesso à acessibilidade, à administração do dispositivo e aos SMS. A acessibilidade foi criada para ajudar pessoas com deficiência, mas também permite ler a tela e tocar por você, e por isso é a preferida dos apps que roubam o acesso ao banco. O nome de cada menu muda conforme a marca do celular.
- Faça a verificação de segurança da sua conta Google em myaccount.google.com/security-checkup, que mostra os aparelhos conectados e os acessos recentes.
No iPhone
Muita gente procura como saber se o iPhone foi hackeado. No iPhone é mais raro entrar um app malicioso, mas continua bem possível alguém entrar na sua conta. Veja o que conferir:
- Use a Verificação de Segurança. Fica em Ajustes, em Privacidade e Segurança. A Apple explica que a Verificação de Segurança mostra quem tem acesso às suas informações e à sua localização, quais aparelhos estão conectados à sua conta Apple e quais permissões os apps têm, e permite cortar tudo de uma vez se precisar.
- Revise os aparelhos da sua conta Apple tocando no seu nome em Ajustes. Se houver algum que não é seu, remova e troque a senha.
- Veja se há perfis instalados em Ajustes, Geral, VPN e Gerenciamento de Dispositivos. Se não é um celular da empresa e aparece um perfil que você não conhece, é sinal de alerta.
- Saiba como são as notificações de ameaça da Apple. Se a Apple detectar um ataque de spyware avançado contra você, ela avisa na tela, em Ajustes e por e-mail. A Apple diz que esses avisos nunca pedem para clicar em links, instalar nada ou passar códigos, então um «aviso da Apple» que pede isso é golpe.
Nas suas contas, seja qual for o celular
No WhatsApp, vá em Configurações e Dispositivos conectados e desconecte qualquer sessão que você não reconheça, principalmente um WhatsApp Web aberto em um computador que não é seu. Faça o mesmo nas sessões ativas do e-mail, Instagram, Facebook ou TikTok. Muitos casos de «celular clonado» são, na verdade, isso, e se resolvem encerrando a sessão e trocando a senha.
Mitos: o código para saber se o celular foi clonado
Com certeza já chegou para você algum vídeo ou mensagem com um código mágico que, digitado no teclado, mostra se o celular está clonado. Ele não existe. Os códigos que circulam são funções da rede ou do próprio aparelho, e nenhum procura programa espião. O que eles fazem de verdade é isto:
*#21#mostra se o desvio de todas as suas ligações para outro número está ativado. Com*#61#,*#62#e*#67#você confere os desvios quando não atende, quando o celular está desligado ou quando está ocupado.##002#cancela todos os desvios de uma vez, inclusive o da caixa postal, na maioria das operadoras. Se não funcionar no seu, confira o desvio nas configurações de chamadas do celular ou peça à sua operadora.*#06#só mostra o IMEI, o número de série do celular. Vale anotar caso ele seja roubado, mas não diz nada sobre invasão.
Mesmo assim, conferir o desvio faz sentido, por um motivo bem concreto. Um golpe comum é uma mensagem ou ligação, supostamente da operadora, pedindo para você digitar um código «para resolver um problema na linha». Esse código desvia as suas ligações para os golpistas, que então pedem ao WhatsApp o código de verificação por ligação, ficam com a sua conta e saem pedindo dinheiro aos seus contatos. Então, se alguém pedir para você digitar um código que começa com *21* ou **21*, desligue. E se você já digitou, tire um print do que aparece com *#21#, cancele o desvio com ##002# e ligue para a operadora.
Como limpar o celular passo a passo
Se depois de revisar você acha que o celular foi mesmo invadido, faça isto, mais ou menos nesta ordem. Não precisa ser perfeito, o importante é começar hoje:
- Se há dinheiro envolvido, tire prints antes de apagar qualquer coisa: do app suspeito, das permissões dele, das mensagens e das movimentações do banco. Se você vai registrar ocorrência, esse celular é uma prova.
- Desconecte o celular da internet por um momento, desligando o Wi-Fi e os dados móveis, para o app parar de enviar informações enquanto você age.
- Desinstale o app suspeito. No Android, se ele não deixar, tire antes a permissão de administração do dispositivo ou de acessibilidade. O Google tem uma página sobre como remover malware no Android.
- Atualize o sistema e todos os apps, porque as atualizações fecham as falhas que os invasores aproveitam.
- Troque as senhas a partir de outro aparelho de confiança, não do celular afetado. Comece pelo e-mail, que é a chave de todo o resto, e siga pelo banco, a conta Google ou Apple, o WhatsApp e as redes. Ative a verificação em duas etapas em todas.
- Se os sintomas continuarem, restaure o celular de fábrica. Isso apaga tudo o que há no aparelho, inclusive o app malicioso. Faça antes um backup das fotos e contatos e tenha à mão a senha da sua conta Google ou Apple, como explica o Google no guia para redefinir um Android. Ao restaurar, não instale de novo o app que deu problema.
A Cartilha de Segurança do CERT.br também traz, de forma bem simples, os cuidados básicos com celulares e tablets, se você quiser se aprofundar.
Se já usaram o seu WhatsApp, as suas contas ou o seu banco
Se a invasão foi além do celular, o importante é frear o prejuízo o quanto antes. Dá para fazer muita coisa, e cada hora conta, então vale começar hoje.
- WhatsApp. Registre de novo o seu número no seu celular para tirar o invasor e ative a verificação em duas etapas, que acrescenta um PIN que ninguém consegue adivinhar. Avise os seus contatos por outro meio para não pagarem nada que for pedido pela sua conta. Explicamos tudo no golpe do WhatsApp.
- Redes sociais e e-mail. Use as opções oficiais de «minha conta foi invadida» de cada plataforma, troque a senha e encerre todas as sessões. Se estão usando o seu nome para enganar outras pessoas, veja roubo de identidade: o que fazer.
- Banco e Pix. Ligue já pelo número do site ou do verso do cartão, peça o bloqueio dos cartões e do internet banking e a revisão de aparelhos, favorecidos e operações. Se saiu Pix, peça que o banco acione o MED, o Mecanismo Especial de Devolução do Banco Central, que serve justamente para tentar recuperar o dinheiro em casos de fraude. Depois conteste por escrito. O STJ entende, na Súmula 479, que o banco responde pelos danos de fraudes praticadas por terceiros em operações bancárias. Você encontra todos os passos em golpe bancário: o banco devolve o dinheiro?.
- Boletim de ocorrência. Invadir o celular ou as contas de outra pessoa é crime. O Código Penal, com a redação da Lei 14.155/2021, pune no artigo 154-A a invasão de dispositivo informático com reclusão de 1 a 4 anos, e a fraude eletrônica com reclusão de 4 a 8 anos. Você pode registrar a ocorrência online na maioria dos estados. Em Portugal, a queixa pode ser feita na Queixa Eletrónica da Polícia Judiciária. Explicamos passo a passo em como denunciar um golpe online.
Quando pedir uma perícia no celular
Na maior parte das vezes não é preciso, e com os passos acima o problema acaba. Mas vale a pena um perito em forense digital examinar o seu celular quando levaram dinheiro e o banco duvida que não foi você, quando você suspeita que alguém próximo está espionando, quando quer registrar ocorrência e precisa provar o que aconteceu ou quando a invasão afeta o seu trabalho ou um processo.
O perito analisa o celular e as contas com métodos que depois ninguém consegue contestar, encontra o app ou o acesso usado, data cada passo e explica tudo em um laudo pericial, um documento que o banco, a polícia e o juiz entendem. Por isso é tão importante não restaurar o celular antes de consultar alguém se o caso for sério. Explicamos exatamente o que ele faz em perito forense digital em criptomoedas, e vale para qualquer invasão.
Imagine que isso acontece com você
Imagine que alguém liga dizendo ser da central de segurança do seu banco, com uma voz muito profissional, e conta que detectaram uma falha de segurança no seu celular. Para resolver, pede que você instale um app «de proteção» por um link que manda por SMS. Você instala, dá as permissões pedidas e desliga achando que está tudo resolvido. Dois dias depois, vê no app do banco três Pix que você não fez.
Num caso assim, o mais útil seria ligar na hora para o banco pelo número oficial para bloquear tudo e pedir o MED, tirar prints do app e das permissões, desinstalá-lo, trocar as senhas de outro aparelho, contestar por escrito e registrar o boletim de ocorrência. Como esses Pix não foram feitos por você, há bons argumentos para exigir a devolução, e um perito pode deixar provado que foi o app que os fez. É só um exemplo, mas mostra bem como começam muitos desses casos.
Como evitar que invadam o seu celular de novo
Se ainda não aconteceu com você, ou se você não quer que aconteça de novo, a boa notícia é que quase todas as invasões de celulares de pessoas comuns se evitam com poucos hábitos:
- Instale apps só pela Google Play ou pela App Store, e nunca um que peçam para você instalar por telefone ou por link, mesmo que digam ser o seu banco, a polícia ou a operadora.
- Nunca passe um código que chegou por SMS, nem para quem diz ser do WhatsApp, do banco ou um amigo. Ninguém sério precisa dele.
- Ative a verificação em duas etapas no WhatsApp, no e-mail, nas redes e no banco, e use uma senha diferente em cada lugar.
- Use um bloqueio de tela que só você saiba e não empreste o celular desbloqueado. É a única forma de impedir que alguém próximo instale um app espião.
- Mantenha o celular atualizado, e se ele não recebe mais atualizações de segurança, pense em trocá-lo.
- Desconfie da pressa. Uma mensagem dizendo que a sua conta será bloqueada hoje ou um «técnico» que precisa entrar no seu celular agora são quase sempre o começo de um golpe. Os mais comuns estão em golpe do SMS falso do banco e no golpe da falsa central.
Cuidado com quem oferece «desclonar» o seu celular
Assim que alguém procura ajuda depois de uma invasão, aparecem perfis nas redes, anúncios e comentários de supostos especialistas que prometem recuperar a sua conta, «rastrear o hacker» ou devolver 100 % do seu dinheiro, sempre com um pagamento adiantado. A gente entende a vontade de resolver logo, mas quem garante o resultado e pede para pagar antes costuma ser um segundo golpe. Antes de pagar a alguém, leia golpe da recuperação e falso advogado.
Se levaram dinheiro, não deixe para depois
Ter o celular invadido dá muita raiva e até um pouco de vergonha, mas pode acontecer com qualquer pessoa, e os golpes por trás são muito bem preparados. Se a invasão terminou em Pix, transferências, cripto ou contas roubadas, quanto antes você agir, mais opções terá.
Somos advogados e peritos especialistas em golpes online, criptomoedas e crimes informáticos, e cada caso é conduzido por um advogado ou um perito. Analisamos o seu celular e as suas contas para demonstrar o que aconteceu, preparamos a contestação ao banco ou à plataforma e pedimos às autoridades o que for preciso para tentar bloquear o dinheiro. Em muitos casos o dinheiro é recuperado, sobretudo se você agir rápido. Na Kironic fazemos todo o possível para recuperar o seu dinheiro: envie o seu caso e vamos analisá-lo juntos.


