Caí em um golpe: o que fazer nas primeiras 24 horas

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Cronômetro, lista de verificação com caixas marcadas, escudo com check e cadeado, em linhas azuis sobre preto

Você acabou de perceber. O vendedor sumiu, a plataforma de investimento não deixa sacar, a "central do banco" que ligou não era o seu banco, ou o Pix que você mandou não foi para quem você pensava. É normal sentir um aperto no peito, um pouco de vergonha e muita vontade de saber se ainda dá para fazer alguma coisa. Dá, e bastante, principalmente nas primeiras horas.

Vamos explicar o que fazer quando você cai em um golpe pela internet, na ordem que mais ajuda: o que fazer na primeira hora, como guardar as provas, quem avisar, como registrar o boletim de ocorrência e o que vem depois conforme a forma de pagamento. E se ainda não aconteceu e você só está desconfiado, também mostramos como saber se é golpe antes de pagar qualquer coisa. O texto pensa no Brasil, com uma parte para quem está em Portugal.

Resposta rápida

Pare de falar com o golpista e não pague mais nada. Fale agora com o seu banco pelo número do verso do cartão ou pelo app oficial, peça o bloqueio de cartões e do acesso à conta e, se foi Pix, peça o MED na hora. Troque as senhas, guarde prints de tudo e registre o BO. Os bancos respondem pelas fraudes de terceiros em operações bancárias, e o MED permite bloquear o dinheiro enquanto ele ainda está na conta do golpista. Em muitos casos o dinheiro é recuperado, sobretudo se você agir rápido.

Neste artigo
  1. A primeira hora: o que mais importa
  2. Bloquear cartões, contas e acessos
  3. Guardar provas: prints, comprovantes e links
  4. Avisar a plataforma e o banco
  5. Registrar o boletim de ocorrência
  6. Golpe é crime?
  7. Próximos passos conforme a forma de pagamento
  8. Como saber se é golpe
  9. Imagine que isso acontece com você
  10. Cuidado com o segundo golpe
  11. Se você está em Portugal
  12. Quando pedir ajuda

A primeira hora: o que mais importa

Se você só tiver tempo para poucas coisas, que sejam estas. Não precisa fazer perfeito, precisa fazer logo:

  1. Corte o contato. Não responda, não atenda as ligações e não faça nenhum pagamento a mais, mesmo que digam que é para "liberar" ou "devolver" o seu dinheiro. Tentar arrancar um segundo pagamento é muito comum.
  2. Fale com o seu banco por um canal que você mesmo buscou. Diga com todas as letras que caiu em um golpe e peça o bloqueio do que for preciso e a tentativa de parar ou recuperar a operação. Se foi Pix, peça o MED.
  3. Troque as senhas que você possa ter passado, começando pela do e-mail e pela do banco, de um aparelho de confiança.
  4. Tire prints da conversa, do anúncio ou do site, do perfil do golpista e do comprovante de pagamento antes que apaguem tudo.
  5. Anote o que lembrar: horários, valores, nomes, telefones, a chave Pix, a conta ou o endereço para onde mandou o dinheiro.

Feito isso, você já deu o passo que mais pesa. O resto dá para fazer com um pouco mais de calma ao longo do dia.

Bloquear cartões, contas e acessos

Se você passou os dados do cartão, a senha ou algum código que chegou por SMS, peça ao banco o bloqueio do cartão e do acesso à conta e confira se cadastraram algum aparelho novo, alguma chave Pix ou um cartão em outra carteira digital. Se instalou um aplicativo a pedido de alguém, desinstale e conte ao banco, porque ele pode ter dado acesso às suas mensagens ou à sua tela.

Olhe também as suas outras contas. Se você repete senha, troque em todos os lugares e ative a verificação em duas etapas no e-mail, no WhatsApp e nas redes sociais. O CERT.br tem uma cartilha simples sobre isso. Se clonaram o seu WhatsApp ou invadiram uma rede social, avise os seus contatos por outro canal para ninguém fazer Pix em seu nome.

O Ministério da Justiça reuniu na página Sofri um golpe, e agora? orientações para cada situação, de link suspeito a conta invadida. Vale ter à mão.

As provas são o que transforma a sua história em um caso que o banco, a polícia ou um juiz consegue movimentar. Mesmo que agora dê vontade de apagar tudo, guarde:

  • Prints completos das conversas, mostrando o número ou o perfil do golpista, a data e a hora.
  • O comprovante de cada pagamento: Pix (com a chave e o nome do recebedor), TED, boleto, compra no cartão ou, se foi cripto, o endereço de destino e o identificador da transação (o hash).
  • O endereço do site ou o link do anúncio, e um print de como ele aparecia.
  • Os e-mails e SMS que você recebeu, sem apagar do celular.
  • Um relato curto por escrito de como tudo começou e o que aconteceu depois, em ordem. Hoje você lembra bem; daqui a um mês, nem tanto.

Não precisa ficar bonito. Uma pasta no celular ou no computador com tudo junto já ajuda muito.

Avisar a plataforma e o banco

O banco é a peça-chave, então registre cada contato: horário da ligação, com quem falou e o número de protocolo. Depois formalize por escrito, explicando quais operações você não reconhece ou como foi enganado.

Aqui uma diferença pesa bastante:

  • Se alguém fez transações sem a sua autorização (conta invadida, cartão clonado, celular roubado), o STJ consolidou na Súmula 479 que as instituições financeiras respondem pelos danos causados por fraudes de terceiros em operações bancárias. Isso fortalece muito a sua reclamação.
  • Se foi você quem fez o Pix porque foi enganado, ainda há caminho. O MED, o Mecanismo Especial de Devolução do Banco Central, permite contestar o Pix pelo app do banco em até 80 dias. O banco do recebedor bloqueia o valor se ainda houver saldo e analisa o caso. Não é automático, mas pedir rápido é justamente o que dá chance.

Se você comprou por um marketplace, um site de aluguel ou um app de usados, denuncie também por lá, pelo canal oficial. Às vezes eles conseguem segurar o pagamento ou a conta do vendedor, e de qualquer forma fica registrado.

Se o banco negar ou não responder, siga a ordem: SAC, ouvidoria, reclamação no Banco Central e no Consumidor.gov.br ou Procon. Explicamos tudo com mais detalhe em golpe bancário: o banco devolve o dinheiro?.

Registrar o boletim de ocorrência

Registrar o BO dá preguiça e às vezes parece não servir para nada, mas ele abre quase todas as outras portas. O banco costuma pedir, as plataformas colaboram mais quando há registro e é o que permite à polícia e à Justiça pedir dados e bloqueios.

Na maioria dos estados dá para registrar a ocorrência pela internet, na delegacia virtual da sua Polícia Civil. Se preferir, vá a uma delegacia, de preferência uma especializada em crimes cibernéticos se houver na sua cidade. Leve documento, comprovantes, prints e o seu relato, e guarde o número do BO. Mostramos como preparar tudo em como denunciar golpe online.

Golpe é crime?

Quase com certeza, sim, mesmo que o golpista tenha feito você sentir que "a culpa foi sua por confiar". O Código Penal chama de estelionato, no art. 171, obter vantagem ilícita em prejuízo de alguém, induzindo a pessoa ao erro com algum truque ou meio fraudulento. Em palavras simples: mentiram para você entregar o seu dinheiro.

Desde a Lei 14.155/2021, existe também a fraude eletrônica (§ 2º-A do mesmo artigo), com pena de 4 a 8 anos de reclusão quando o golpe usa informações obtidas por redes sociais, ligações, e-mail ou mensagens. Um detalhe prático: em regra, o estelionato depende de representação da vítima, que é você dizer formalmente que quer que o autor seja processado. Então, ao registrar o BO, deixe isso claro.

E a diferença entre golpe, fraude e estelionato? No dia a dia elas se misturam. Golpe é o nome popular, fraude é o termo geral que os bancos usam e estelionato é o nome do crime. Para registrar, você não precisa acertar o nome: basta contar bem o que aconteceu.

Próximos passos conforme a forma de pagamento

O que vem depois depende muito de como o dinheiro saiu. Aqui vai o essencial de cada caso, e todos os caminhos com mais detalhe em como recuperar dinheiro de golpe:

  • Pix. Um Pix enviado não se cancela pelo app, e isso é frustrante, mas agir rápido aumenta as chances: peça o MED na hora, pelo app ou pelos canais oficiais do banco. Com as melhorias do MED 2.0, o sistema também tenta seguir o dinheiro pelas contas seguintes. Se o golpe foi do "Pix errado", veja golpe do Pix errado.
  • TED, transferência ou boleto. Uma transferência concluída não se desfaz com um botão, mas o banco pode contatar o banco de destino e pedir o bloqueio se o dinheiro ainda estiver lá. Guarde o boleto e a mensagem em que ele chegou.
  • Cartão. Se usaram o cartão sem a sua autorização, é fraude de terceiros e o banco responde. Se você pagou por algo que nunca chegou, peça a contestação da compra, que é quando o banco cobra o valor de volta do lojista pela bandeira (Visa, Mastercard, Elo).
  • Criptomoedas. Avise a corretora de onde saíram os fundos, guarde os endereços e os hash das transações e registre o BO logo. A cripto deixa rastro na blockchain e, se chegar a uma corretora que identifica os clientes, dá para pedir o bloqueio. Veja golpe com criptomoeda: o que fazer.
  • Roubaram os seus dados. Além do acima, fique de olho em contas ou empréstimos abertos em seu nome. Explicamos em roubo de identidade: o que fazer.

Como saber se é golpe

Se você ainda não pagou, ou está prestes a pagar e algo não fecha, confie nessa sensação. Quase todo golpe online tem os mesmos sinais, mude a história que mudar:

  • Apressam você. "Só hoje", "na próxima hora", "senão sua conta será bloqueada". A pressa existe para você não parar para pensar.
  • Pedem um pagamento difícil de desfazer: Pix para um desconhecido, transferência para uma conta nova, criptomoedas ou cartões-presente.
  • Pedem senhas ou códigos que chegam no seu celular. Ninguém legítimo precisa deles, nem o banco, nem a polícia.
  • Prometem ganhos altos e garantidos, ou um prêmio, um emprego ou um aluguel bom demais para ser verdade.
  • A mensagem vem de um conhecido, mas pede algo estranho, como votar num concurso por um link ou emprestar dinheiro por um "número novo".

Se você se reconheceu em algum desses pontos, pare um instante. Confirme por outro canal, ligando você mesmo para o número de sempre da pessoa ou da empresa, e não pague até ter certeza. Perguntar a alguém de confiança não custa nada e pode evitar uma dor de cabeça enorme.

Imagine que isso acontece com você

Imagine que numa quinta à tarde você compra um celular usado de um particular, que pede um Pix "para reservar". Você manda R$ 1.500, ele promete enviar no dia seguinte e, à noite, já não responde e o perfil sumiu.

Num caso assim, o mais útil seria falar com o banco naquela mesma noite pelo canal oficial, explicar que foi golpe e pedir o MED. Depois, tirar prints do anúncio, da conversa e do comprovante, registrar o BO no dia seguinte com tudo isso e formalizar a reclamação no banco. É só um exemplo, mas mostra o que mais ajuda: agir cedo e ter as provas organizadas.

Cuidado com o segundo golpe

Depois de um golpe, é muito comum voltarem a procurar você. Às vezes fingem ser a polícia, o banco, um "advogado" ou uma empresa que "recupera dinheiro de golpe", e pedem um pagamento adiantado, uma "taxa" ou um "imposto" para devolver tudo. A gente entende a vontade de resolver logo, mas quem garante 100 % de recuperação em troca de pagamento antecipado costuma ser o segundo golpe. Antes de pagar qualquer pessoa, leia golpe da recuperação e do falso advogado.

Se você está em Portugal

Em Portugal, a burla informática é investigada pela Polícia Judiciária, que aceita queixas pela Queixa Eletrónica. Também pode apresentar queixa numa esquadra da PSP, num posto da GNR ou no Ministério Público; o justica.gov.pt explica as opções. Para o dinheiro, o caminho é parecido: contacte de imediato o seu banco (também em pagamentos MB WAY), peça o bloqueio e a devolução e reclame por escrito. Para pagamentos que não autorizou, as regras europeias de serviços de pagamento obrigam o banco a reembolsar, salvo fraude ou negligência grave sua, desde que comunique sem demora e no máximo em 13 meses.

Quando pedir ajuda

Se o banco devolveu o dinheiro em um ou dois dias, ótimo: guarde a documentação e siga com o BO. Vale a pena que um profissional analise quando o valor é alto, quando o banco nega ou não responde, quando falam em culpa exclusiva sua, quando há cripto no meio ou quando foi você quem fez o pagamento e é preciso agir rápido para tentar bloquear o dinheiro na conta de destino.

Somos advogados e peritos especialistas em golpes online, criptomoedas e crimes informáticos, e cada caso é conduzido por um advogado ou um perito. Analisamos com você o que aconteceu, para onde o dinheiro foi e o que pedir ao banco, à plataforma ou à Justiça para que a sua reclamação tenha força. Em muitos casos o dinheiro é recuperado, sobretudo se você agir rápido. Na Kironic fazemos todo o possível para recuperar o seu dinheiro: envie o seu caso assim que tiver os dados básicos e a gente analisa junto.

Perguntas frequentes

Caí em um golpe, o que faço primeiro?

Pare de falar com o golpista e fale com o seu banco pelo número do verso do cartão ou pelo app oficial. Peça o bloqueio de cartões e do acesso à conta e, se foi Pix, peça o MED na hora. Depois troque as senhas, guarde prints de tudo e registre o boletim de ocorrência. Em muitos casos o dinheiro é recuperado, sobretudo se você agir rápido.

Como saber se estou caindo em um golpe?

Desconfie quando alguém apressa você, pede pagamento por um meio difícil de desfazer (Pix para desconhecido, transferência, cripto), pede senhas ou códigos que chegam no seu celular, ou promete ganhos altos e garantidos. Na dúvida, pare, não pague mais nada e confirme por outro canal, ligando você mesmo para a pessoa ou a empresa pelo número de sempre.

Golpe pela internet é crime?

Sim. O Código Penal trata como estelionato obter vantagem ilícita enganando alguém (art. 171), e desde 2021 prevê a fraude eletrônica, com pena maior, quando o golpe usa redes sociais, ligações, e-mail ou mensagens. Em regra o estelionato depende de representação da vítima, por isso, ao registrar o BO, deixe claro que quer que o autor seja processado.

Qual a diferença entre golpe, fraude e estelionato?

No dia a dia as três palavras se misturam. Golpe é o nome popular, fraude é o termo geral que os bancos usam para qualquer engano que causa prejuízo, e estelionato é o nome do crime no Código Penal. Para registrar o BO você não precisa acertar o nome: basta contar bem o que aconteceu.

Qual é o prazo para pedir o MED do Pix?

Você pode contestar o Pix pelo MED em até 80 dias da transação, mas o ideal é pedir no mesmo dia. O banco do recebedor só consegue bloquear se ainda houver saldo na conta, e o golpista costuma mover o dinheiro rápido.

Fontes