E-mail da empresa invadido: o que fazer se os seus clientes pagaram ao golpista

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Envelope de e-mail com um cadeado aberto e faturas desviadas para um anzol, ilustração de e-mail da empresa invadido

Um cliente antigo liga para a sua empresa perguntando por que vocês continuam cobrando uma fatura que ele pagou há dez dias. Ele manda o comprovante e aí vocês veem: o dinheiro foi para uma conta que não é a sua. Ele recebeu um e-mail do endereço de sempre, com a sua assinatura e o seu jeito de escrever, avisando que a empresa tinha trocado de banco, às vezes já com um boleto novo em anexo. Não tinha motivo para desconfiar, porque o e-mail era mesmo de vocês. O que aconteceu é que alguém invadiu o e-mail da sua empresa, passou um tempo lendo as conversas e aproveitou para cobrar em seu nome. É o mesmo golpe do boleto falso ou da troca de dados bancários, só que visto do outro lado: aqui a sua empresa não é quem pagou, é o fornecedor usado no golpe. É um baque, mas dá para fazer muita coisa hoje mesmo e, quando se age rápido, muitas vezes o dinheiro é recuperado.

Se aconteceu o contrário e foi a sua empresa que pagou uma cobrança falsa de um fornecedor, explicamos tudo em golpe do boleto falso em empresas. Aqui o foco é o que fazer quando o e-mail invadido é o seu e quem pagou foram os seus clientes.

Resposta rápida

Se invadiram o e-mail da sua empresa e algum cliente já pagou: ligue para os clientes com cobranças recentes ou em aberto, para que ninguém mais pague e para que quem já pagou ligue para o banco e peça o bloqueio (se foi Pix, o MED). Troque a senha, encerre as sessões e ative a verificação em duas etapas. Não apague nada sem registrar antes, porque a caixa de e-mail é a prova. Registre o B.O. e, se havia dados pessoais no e-mail, avalie comunicar a ANPD em até 3 dias úteis.

Neste artigo
  1. Como os golpistas usam o e-mail da sua empresa para cobrar os seus clientes
  2. Sinais de que invadiram o e-mail da sua empresa
  3. As primeiras horas: o que fazer se invadiram o e-mail da empresa
  4. Proteger o e-mail sem apagar as provas
  5. Registrar o B.O. e avisar quem precisa saber
  6. Como contar para os seus clientes
  7. Quem arca com o prejuízo: a sua empresa ou o cliente que pagou?
  8. Como evitar que usem de novo o e-mail da sua empresa
  9. Quando procurar ajuda profissional

Como os golpistas usam o e-mail da sua empresa para cobrar os seus clientes

O que se chama de fraude BEC (business email compromise, e-mail corporativo comprometido) quase sempre começa com algo pequeno: uma senha digitada numa página falsa que imitava o Microsoft 365 ou o Google, uma senha repetida que vazou de outro site ou um computador com programa espião. Segundo o FBI, o golpe costuma começar quando alguém invade uma conta de e-mail legítima, com engenharia social ou invasão do sistema, e os criminosos podem passar um tempo só lendo os e-mails antes de agir. Esperam o momento certo: uma cobrança alta, um cliente novo ou o responsável de férias.

Para não serem vistos, criam regras na caixa de e-mail. Uma regra típica pega os e-mails que vocês enviam com faturas ou boletos e manda uma cópia para fora. Assim eles pegam a sua cobrança real, trocam os dados bancários ou o boleto e reenviam como se fosse sua. Às vezes também escondem as respostas dos clientes numa pasta que ninguém abre, para vocês não verem quando alguém pergunta sobre a conta nova.

Por isso o golpe machuca tanto: o cliente não vê nada estranho. O e-mail sai do seu endereço verdadeiro, na mesma conversa de sempre. Para ele é quase impossível perceber, e para vocês também, até alguém cobrar.

Depois que vocês fecham o acesso, eles podem continuar a partir de um domínio quase igual ao seu (uma letra trocada) ou ligar para o cliente de um número que parece o seu. Se isso acontecer, explicamos como funciona em golpe da falsa central e spoofing.

Sinais de que invadiram o e-mail da sua empresa

Muitas empresas só descobrem por um cliente, mas há pistas que vale a pena conhecer:

  • Um cliente pergunta sobre uma troca de conta ou um boleto novo que ninguém enviou, ou paga para uma conta que vocês não reconhecem.
  • Regras de encaminhamento ou filtros que ninguém criou, principalmente os que movem e-mails para pastas como «RSS», «Arquivo» ou «Itens excluídos».
  • E-mails na pasta Enviados que ninguém escreveu, ou e-mails que somem da caixa de entrada.
  • Alertas de login de outro país ou de um aparelho desconhecido.
  • Respostas estranhas de clientes ou fornecedores a mensagens que ninguém da empresa mandou.

Não se culpem se não perceberam. Esses ataques são feitos justamente para ninguém notar.

As primeiras horas: o que fazer se invadiram o e-mail da empresa

A ordem importa e cada hora conta. Não é preciso saber como entraram para começar a agir:

  1. Ligue para os clientes, começando pelos que têm cobranças recentes ou em aberto. Por telefone, num número que vocês já tinham, nunca respondendo ao e-mail. Quem ainda não pagou deve ignorar qualquer troca de conta ou boleto novo. Quem já pagou deve ligar para o banco agora.
  2. O cliente liga para o banco dele. Foi ele quem pagou, então é o banco dele que precisa contatar a instituição que recebeu o dinheiro e pedir o bloqueio. Se foi por Pix, ele deve pedir o MED, o Mecanismo Especial de Devolução. Ajude com o que ele precisar: o e-mail falso, a conta ou o boleto de destino, a data e o valor.
  3. Fale também com o seu banco. Conte o que aconteceu, confira se ninguém entrou no seu internet banking (pode acontecer se a senha estava no e-mail ou era repetida) e peça uma declaração com os dados da sua conta verdadeira, que vai ajudar a tranquilizar os clientes.
  4. Feche a porta do e-mail sem apagar os rastros. Explicamos abaixo.
  5. Escolha uma pessoa para coordenar tudo e anote cada ligação: com quem, a que horas e o que foi dito.

Dica Kironic

Faça uma lista de todas as cobranças enviadas por e-mail nas últimas semanas: cliente, valor, data e se já foi paga. Assim vocês sabem na hora para quem ligar primeiro e quanto dinheiro pode estar em jogo. Essa mesma lista serve para o B.O., para os bancos e para o advogado.

Dá para recuperar o dinheiro que os clientes pagaram?

Muitas vezes, sim, principalmente quando se age nas primeiras horas. Se o dinheiro ainda está na conta de destino, a instituição que o recebeu pode bloqueá-lo, e o B.O. registrado logo ajuda. No Pix, o MED existe justamente para casos de fraude e funciona melhor quando o pedido é feito rápido. Por isso, não esperem ter tudo claro para avisar os clientes.

Para entender melhor como recuperar um pagamento, veja caí em um golpe: como recuperar o dinheiro.

Proteger o e-mail sem apagar as provas

Aqui é preciso fazer duas coisas ao mesmo tempo: tirar os golpistas e não destruir o que prova o que eles fizeram. O ideal é que quem cuida do seu e-mail (o pessoal de TI ou o fornecedor do Microsoft 365, Google Workspace ou outro) faça isso junto com vocês:

  • Troque a senha da conta invadida num aparelho de confiança, e a de qualquer outra conta que usava a mesma senha.
  • Encerre todas as sessões abertas e ative a verificação em duas etapas (o código que chega no celular ou num aplicativo). O CERT.br recomenda ativá-la sempre que possível, porque dificulta muito que voltem a entrar mesmo com a senha.
  • Confira as regras de encaminhamento, os filtros e o encaminhamento automático. Antes de apagar, faça capturas de tela e anote para onde mandam os e-mails.
  • Veja quem mais tem acesso: usuários novos, permissões delegadas na caixa, aplicativos conectados à conta e o e-mail ou telefone de recuperação. Às vezes os golpistas deixam uma porta dos fundos por aqui.
  • Olhe os registros de acesso (de onde e quando entraram) e as contas de administrador.

Por que vale a pena um perito preservar a caixa de e-mail

Um perito em computação forense faz uma cópia da caixa de e-mail e dos registros de um jeito que ninguém possa dizer depois que foi alterada. Para entender: ele gera uma espécie de impressão digital de cada arquivo (o que tecnicamente se chama hash), e se alguém mudasse uma vírgula, a impressão digital já não bateria. É isso que permite usar o e-mail falso, as regras e os acessos como prova na Justiça ou numa negociação com um cliente.

Há uma razão prática para ter pressa: os provedores de e-mail só guardam esses registros por um tempo limitado. Se eles se perdem, fica bem mais difícil provar de onde entraram e o que fizeram. A parte boa é que, preservada a tempo, essa informação costuma ser muito útil para rastrear o dinheiro e defender a sua empresa.

Registrar o B.O. e avisar quem precisa saber

O boletim de ocorrência

Há duas coisas a registrar: a invasão do e-mail da sua empresa, que é crime mesmo que nenhum dinheiro tenha sido desviado, e o golpe contra cada cliente que pagou, que normalmente o próprio cliente registra, porque foi ele quem fez o pagamento. Combinem entre vocês para que os relatos contem a mesma história.

Em muitos estados dá para registrar a ocorrência online, e algumas cidades têm delegacias especializadas em crimes cibernéticos. Leve o e-mail falso exportado no formato original (.eml ou .msg, para manter os cabeçalhos), as contas ou boletos de destino, as capturas das regras, uma linha do tempo curta e os protocolos dos bancos. O passo a passo está em como denunciar golpe online.

A ANPD em até 3 dias úteis, se havia dados pessoais

Se os golpistas estiveram dentro do e-mail da empresa, quase certamente viram dados pessoais: nomes, telefones, endereços ou dados bancários de clientes, holerites de funcionários, contratos. Isso é um incidente de segurança com dados pessoais. A LGPD (art. 48) obriga a empresa a comunicar à ANPD e aos titulares os incidentes que possam causar risco ou dano relevante, e pela Resolução CD/ANPD nº 15/2024 o prazo é de até 3 dias úteis. A ANPD explica como fazer a comunicação.

Parece pesado, mas não precisa assustar: comunicar no prazo mostra que a empresa agiu com responsabilidade. E, se no fim não for necessário comunicar, registre internamente o que aconteceu e o que foi feito.

Como contar para os seus clientes

Dá medo ligar para um cliente e dizer que invadiram o e-mail da empresa, mas ficar calado é pior: a cada dia que passa, mais clientes podem pagar ao golpista. Uma ligação rápida e clara de vocês tranquiliza muito mais do que ele descobrir sozinho.

Primeiro por telefone para quem tem cobrança em aberto, depois um aviso por escrito para todos. O aviso deve ser curto e verdadeiro: a empresa sofreu um acesso indevido ao e-mail, os dados bancários não mudaram, ignorem qualquer e-mail que diga o contrário e, na dúvida, liguem no telefone de sempre. Não é preciso falar de culpa nem de detalhes técnicos. Se um advogado já estiver acompanhando o caso, peça para revisar o texto antes de enviar, principalmente se há clientes que perderam dinheiro.

E se alguém também estiver usando o nome da sua empresa para enganar outras pessoas, com perfis ou domínios falsos, explicamos como agir em roubo de identidade: o que fazer.

Quem arca com o prejuízo: a sua empresa ou o cliente que pagou?

É a pergunta que mais preocupa, e não existe uma resposta automática. O Código Civil diz que o pagamento deve ser feito ao credor ou a quem o represente (art. 308), então, em princípio, se o dinheiro não chegou à sua empresa, a cobrança não foi recebida. Mas o mesmo Código diz que o pagamento feito de boa-fé a quem parecia ser o credor é válido (art. 309). E o cliente pode dizer, com alguma razão, que o e-mail saiu do seu endereço verdadeiro.

Na prática, pesa principalmente:

  • Onde estava a falha. Se invadiram o seu e-mail, vai se olhar quais medidas de segurança vocês tinham (senhas, verificação em duas etapas, acompanhamento dos acessos).
  • Se o cliente tinha motivo para desconfiar. Um beneficiário com nome ou CNPJ diferente na tela do banco, um banco que não combina ou um boleto com cara estranha contam.
  • O que cada um fez ao descobrir. Avisar rápido e colaborar conta a favor.

Muitas vezes a saída é um acordo, e às vezes o prejuízo é dividido. Por isso, não cobrem a fatura de forma agressiva nem a deem por perdida no primeiro dia. Vejam também se a empresa tem seguro cibernético, porque algumas apólices cobrem esse tipo de fraude, e avisem a seguradora logo, porque costuma haver prazos. Antes de fechar qualquer coisa com um cliente, peça para um advogado analisar: costuma haver mais saídas do que parece.

Imagine uma empresa de climatização que tem o e-mail invadido numa sexta-feira. Na segunda, dois clientes já pagaram boletos com os dados trocados. Se naquela mesma manhã a empresa liga para todos os clientes com cobranças em aberto, os dois que pagaram ligam para o banco e registram o B.O., e um perito preserva a caixa de e-mail antes de mexer em qualquer coisa, é bem possível que parte ou todo o dinheiro ainda esteja na conta de destino e possa ser bloqueado. E a relação com esses clientes sai fortalecida, porque eles viram a empresa reagir rápido.

Como evitar que usem de novo o e-mail da sua empresa

A boa notícia é que a maioria desses ataques se evita com hábitos simples, os mesmos que recomendam o CERT.br e a FEBRABAN.

Para prevenir, não façam nenhuma troca de dados bancários por e-mail. Avisem os seus clientes, desde já e por escrito, que a empresa nunca vai mudar a conta ou mandar um boleto novo só por e-mail, e que, se um dia chegar uma mensagem assim, liguem no telefone de sempre antes de pagar. Quando eles se acostumam a ouvir isso, a próxima tentativa não dá em nada.

E, por dentro, no e-mail da empresa:

  • Ativem a verificação em duas etapas em todas as contas, inclusive a do dono e as genéricas, como «financeiro@» ou «contato@», que costumam ser esquecidas.
  • Usem senhas únicas no e-mail, que não se repitam em nenhum outro site, e não usem o e-mail da empresa para se cadastrar em serviços que não têm nada a ver com o trabalho.
  • Revisem de tempos em tempos as regras de encaminhamento e os acessos. Cinco minutos por mês bastam para pegar uma regra estranha a tempo.
  • Peçam a quem cuida do domínio para configurar SPF, DKIM e DMARC, ajustes técnicos que dificultam que outros mandem e-mails se passando por vocês.
  • Incentivem os clientes a usar o DDA e a conferir sempre, na tela do banco, o nome e o CNPJ do beneficiário antes de pagar um boleto ou um Pix.
  • Conversem com a equipe. Todo mundo deve saber que uma página pedindo a senha do e-mail depois de clicar num link merece uma ligação para a TI antes de digitar qualquer coisa.

Quando procurar ajuda profissional

Se há clientes que pagaram valores altos, se os bancos não conseguem bloquear o dinheiro, se vocês não sabem quanto tempo os golpistas ficaram dentro ou se algum cliente está cobrando responsabilidade da empresa, vale uma avaliação profissional o quanto antes. Um perito em computação forense pode preservar a caixa de e-mail e os registros e descobrir por onde entraram, e um advogado pode pedir o bloqueio das contas de destino, ajudar com a ANPD e negociar com os clientes.

Somos advogados e peritos especialistas em golpes online, criptomoedas e crimes informáticos. Cada caso é sempre atendido por um advogado ou um perito. Envie o que vocês tiverem, mesmo que esteja bagunçado: o e-mail falso que os clientes receberam, os comprovantes e o que encontraram na caixa de e-mail. Analisamos de graça e dizemos o que fazer hoje e quais são os próximos passos. Em muitos casos o dinheiro é recuperado, principalmente quando se age rápido. Na Kironic fazemos todo o possível para recuperar o seu dinheiro.

Um último aviso: depois de um incidente assim, às vezes aparecem «empresas de recuperação» que garantem 100% em troca de um pagamento antecipado. Costuma ser o segundo golpe. Explicamos como reconhecer em golpe do falso advogado e falsas empresas de recuperação.

Perguntas frequentes

Os meus clientes pagaram ao golpista. Eles têm de pagar de novo?

Depende do caso, e vale a pena não correr nem para cobrar nem para perdoar a fatura antes de entender o que aconteceu. O Código Civil diz que o pagamento deve ser feito ao credor, mas também considera válido o pagamento feito de boa-fé a quem parecia ser o credor (art. 309). Pesa muito onde estava a falha de segurança e se o cliente tinha motivos para desconfiar. Muitas vezes a saída é um acordo. Peça para um advogado analisar antes.

Preciso comunicar a ANPD se invadiram o e-mail da empresa?

Se no e-mail havia dados pessoais de clientes, funcionários ou fornecedores e o incidente puder causar risco ou dano relevante, sim. Pela Resolução CD/ANPD nº 15/2024, a comunicação à ANPD e aos titulares deve ser feita em até 3 dias úteis. Se não for necessário comunicar, registre internamente o que aconteceu e o que foi feito.

Dá para recuperar o dinheiro que os clientes pagaram?

Em muitos casos, sim, principalmente se o cliente agir nas primeiras horas, enquanto o dinheiro ainda está na conta de destino. Quem pede a devolução é o banco do cliente, porque foi ele quem pagou. Se foi por Pix, ele deve pedir o MED. Por isso, o mais útil é avisar os clientes o quanto antes para que liguem para o banco e registrem o B.O.

Apago já as regras de encaminhamento que os golpistas criaram?

Antes, registre tudo: faça capturas de tela, anote para qual endereço encaminham e desde quando existem e, se possível, deixe um perito copiar a caixa de e-mail e os registros de acesso. Depois, apague. O que deve ser feito na hora é trocar a senha, encerrar as sessões abertas e ativar a verificação em duas etapas.

Como saber se invadiram o e-mail da minha empresa?

Os sinais mais claros são um cliente perguntar sobre uma troca de conta que ninguém pediu, regras de encaminhamento ou filtros que ninguém criou, e-mails enviados que ninguém escreveu, alertas de login de outro país ou respostas que somem da caixa de entrada. Se notar qualquer um deles, trate como um incidente, mesmo que ainda não haja pagamentos desviados.

Fontes